Seu carrinho está vazio.
O QUE É HAIKAI
O haikai se faz com três
linhas, ou versos, e não mais de 17 sílabas.
Seu tema é a natureza, e não
nossos sentimentos e pensamentos.
Se faz com simplicidade,
leveza, desapego, sutileza, objetividade, integração com o todo.
Sua melhor definição, na
opinião de muitos, é uma fotografia em palavras.
Grava o instante. O fotógrafo
não aparece na foto, mas sua sensibilidade sim.
O mesmo no haikai.
É como se as coisas falassem
por si mesmas. Sem adjetivos, sem a impressão do poeta, exatamente como são.
Só o real, sem comparar a nada
e, talvez por isso mesmo, tão incomparável.
Porque, descrevendo a coisa
apenas como ela é, desperta a sensação da própria coisa.
A sensação, por exemplo, da
estação em que ela acontece, nos fazendo lembrar de que tudo está sempre
mudando, tem o seu próprio tempo, que é cíclico.
É essencial, isto é, capta a
essência das coisas, e a essa característica se dá o nome de haimi, que
significa “sabor de haikai”.
Não é difícil de entender,
quando se volta à comparação com fotografia.
Qualquer um é capaz de
perceber se uma foto é boa ou não, além dos aspectos técnicos. Ela é boa se nos
toca, se capta um instante especial, se provoca uma sensação.
O haikai é uma forma poética
que nasceu no Japão e chegou ao Brasil há exatos 100 anos, em 1908, no navio
kassato Maru, com a primeira leva de imigrantes japoneses.
Diferente, em muitos sentidos,
da poesia que se faz no Ocidente, o haikai nos ensina coisas fundamentais para
nosso momento atual.
Em primeiro lugar, a síntese.
Com apenas três versos, nem um
a mais, nem um a menos, e com 17 sílabas, no máximo, exercitamos o dom de dizer
o suficiente como um mínimo de palavras.
Como vivemos cada vez mais, um
tempo sem tempo, em que não é possível absorver toda informação que nos
chega — nem
transmiti-la — ser sintético e
aprender a concentrar conteúdos e fundamental.
Mas também aprendemos a olhar
para fora de nós mesmos, a observar a natureza, as mudanças de estação, e assim
nos sentimos mais integrados com o todo e ficamos menos absorvidos com nossos
problemas pessoais, que passam a ser menos importantes.
Sair do próprio umbigo, como
Buda avisou, é o caminho para a cessação do sofrimento.
O nome mais conhecido na
história do haikai no Japão e, por tanto, no mundo, é Matsuo Bashô.
Ele era um guerreiro, ou
samurai, e como tal, aprendeu muitas artes zen, que são caminhos para uma
atitude de vida.
Além das artes marciais, judô
(o caminho da suavidade), karatê do (caminho das mãos vazias), kyu dô, (caminho
do arco e flecha), kendô, o caminho de manejar a espada, os samurais do Japão
antigo aprendiam ikebana, ou ka dô, que é a arte do arranjo floral, o cha-dô,
que é a cerimônia do chá, e outras mais, como o haikai dô, ou caminho do
haikai.
Quando seu senhor morreu, de
morte natural, Bashô escolheu, entre tantas artes, ensinar haikai e chegou a
ter 3.000 discípulos. Mas, como o haikai é feito sobre a natureza, Bashô
decidiu sair de sua cidade e viajar para ver as outras paisagens de seu país.
Seus alunos inconformados lhe
pediram para ficar porque achavam que ainda tinham muito a aprender, e Bashô
lhe disse:
Não tenho mais nada para
ensinar a vocês, qualquer dúvida que vocês tenham, perguntem a uma criança de 8
anos.
Porque, não importa a idade
que se tenha, é a criança que existe em cada um de nós, que sabe ler, entender
e escrever haikai.
Alice
Ruiz S
Autor(a) | Alice Ruiz S e Maria Valéria Rezende |
Ilustrador | Fê (Fernando Luiz) |
Nº de páginas | 80 |
ISBN | 978-85-7321-289-1 |
Formato | 16x23 cm |