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Como
observou Chateaubriand, é comum chamar de conspiração política aquilo que na
verdade é “ o mal-estar de todos ou a luta da antiga sociedade contra a nova, o
combate das velhas instituições decrépitas contra a energia das jovens
gerações”.
O momento atual é um desses em
que jornalistas, universitários e políticos, em suma a intelligentsia,
mostra-se em total falta de sintonia com a vitalidade popular. Para entender
melhor em que isso consiste, é preciso pôr em evidência a lógica do conformismo
intelectual reinante. Só quando não mais imperar o ronronar do “moralmente
correto” é que será possível prestar atenção à verdadeira “voz do mundo”.
Este é um Maffesoli diferente,
polêmico e que não receia ser, até mesmo, panfletário. Seu alvo é o pensamento
conformado com as conquistas teóricas dos séculos passados que não mais servem
para entender a época contemporânea. Discutindo com o Pensamento Oficial,
Michel Maffesoli investe contra o politicamente correto, o moralmente correto e
todas as formas do bem-pensar, isto é, contra as ideias feitas que se
transmitem e se repetem acriticamente.
Mesmo que se discorde dele e ele
investe aqui contra quase tudo, de modo incisivo--, este texto oferece-se como
exercício para a razão e o espírito ao assumir a forma de uma variante do
convite essencial feito por Wittgenstein: pensar sempre de outro modo, mudar
sempre a perspectiva pela qual se veem as coisas.
De fato, em particular no modo de
pensar a cultura e a arte, mas não apenas nele, velhas ideias prevalecem intatas,
sem pudor e sem que a maioria pareça dar-se conta da defasagem. Pensa-se e
atua-se no século XXI como se ainda predominasse o cenário do XIX. Moralismos,
comodismos intelectuais e dejetos ideológicos mal digeridos tolhem a visão do
novo e produzem o exato oposto do que dizem defender. Na França, nos EUA e no
Brasil como, um pouco, por toda parte. O resultado tem sido um já longo
processo de domesticação da cultura e da arte. Um exemplo disso é, no Brasil, a
busca de patrocínio mediante uma justificativa e um pretexto sociais retirados
do universo dos bons sentimentos mas que geram largas inconveniências
societais, para usar o termo de Maffesoli, e um profundo mal-estar nessa mesma
cultura e nessa mesma arte.
Reconhecer o novo e descobrir
novas formas de pensá-lo e, se necessário, inventar novas formas de fazê-lo— é
essencial sobretudo para os que pensam a ação cultural e se dedicam à difícil
tarefa de definir políticas culturais. A questão básica aqui continua a ser
aquela proposta por Montesquieu: ampliar a esfera de presença do ser, criar as
condições para que todos e cada um ampliem a esfera de presença de seu ser como
entendam fazê-lo e não como terceiros querem que o façam (quando e se de fato
querem que se amplie a esfera de presença de seu ser...).
E fazê-lo implica pensar nas
razões pelas quais jovens na periferia de Paris queimam carros ou nos motivos
que levaram ao linchamento moral de Stockhausen após o atentado contra as
Torres Gêmeas de Nova York ou por que e como Caetano e Gil e Torquato Neto e
Tom Zé lançaram o Tropicalismo sob os totalitarismos brasileiros dos anos 60
(no plural porque eram mais de um: de um lado, o militar, de direita, com o
poder verdadeiro de vida e de morte, e, de outro, a “patrulha ideológica”, de
esquerda, com seu poder simbólico sobre a vida moral); e por que passaram pelo
que passaram. E implica em pensar nas novas formas de propor e desfrutar da
cultura e da arte que estão sempre surgindo.
Assim polemizando com os
defensores de uma modernidade a esta altura acrítica e que insiste em
reapresentar-se sempre com as mesmas ideias velhas, Michel Maffesoli faz -
aceitando a discussão aberta de princípios teóricos numa época em que isso é
moeda rara -, um resumo atualizado de suas principais concepções sobre a
contemporaneidade, expostas em diversos livros conhecidos do público brasileiro
(como O tempo das tribos, A sombra de Dionisio, A parte do diabo – Resumo da
subversão pós-moderna), anunciando o próximo desdobramento de seu modo de
entender a cultura atual. E, sem dar receitas, apresenta, ao estudioso da
cultura e da arte e aos que assumem responsabilidades na política cultural, uma
proposta de reexame de princípios e metas, reexame que é sempre a condição para
encontrar-se uma sintonia mais fina com a sensibilidade dos novos tempos.
Teixeira Coelho
Autor(a) | Michel Maffesoli |
Tradutor(a) | Ana Goldberger |
Nº de páginas | 128 |
ISBN | 978-85-7321-307-2 |
Formato | 16x23 cm |
Peso | 198 |